O que é planejamento tributário para construtora e por que ele é feito por empreendimento
O planejamento tributário de uma construtora é a escolha, para cada empreendimento, do veículo societário, do regime de tributação e da forma de contratação e venda que resultam na menor carga lícita com risco controlado. Diferentemente de uma empresa comum, a decisão não é anual e única: cada obra pode ter SPE própria, regime próprio e calendário de receitas próprio.
No setor imobiliário, a tributação depende de perguntas que não aparecem em outras atividades: a empresa constrói para terceiros (empreitada) ou incorpora e vende unidades próprias? O terreno foi comprado ou permutado? A venda acontece na planta, durante a obra ou com o imóvel pronto? Há patrimônio de afetação? Os investidores entram como sócios de uma SPE ou como participantes de uma SCP? Cada resposta muda o regime disponível e o valor do tributo.
A Sentinel Contabilidade é um escritório contábil com sede em Balneário Camboriú (SC), especializado em Lucro Real, planejamento tributário e contabilidade para construtoras, incorporadoras e grupos empresariais do litoral catarinense. A visão geral do nosso atendimento ao setor está na página de contabilidade para construtoras e incorporadoras; este artigo aprofunda as decisões tributárias.
Construtora, incorporadora e loteadora: definições que mudam a tributação
- Construtora (empreiteira): executa obras para terceiros, mediante contrato de empreitada global ou de mão de obra. Sua receita é de prestação de serviços de construção civil, sujeita a ISS e, para fins de IRPJ e CSLL no Presumido, a percentuais de presunção próprios (8% e 12% quando a empreitada inclui todos os materiais; 32% nas demais situações).
- Incorporadora: promove e vende unidades autônomas de uma edificação, nos termos da Lei 4.591/1964. Sua receita é de venda de imóveis, e é ela quem pode optar pelo RET quando há patrimônio de afetação.
- Loteadora: promove o parcelamento do solo e vende lotes, com regras próprias de reconhecimento de receita e, na reforma tributária, tratamento específico.
Muitos grupos do setor exercem as três atividades em CNPJs distintos. O planejamento tributário de construtora começa justamente por mapear qual empresa faz o quê — e se essa separação tem substância operacional.
RET ou Lucro Presumido para construtora — e quando o Lucro Real vence
Para incorporações com patrimônio de afetação, o RET recolhe 4% sobre a receita recebida, englobando IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. No Lucro Presumido, a venda de imóveis tem carga próxima de 6,7% da receita. O Lucro Real só tende a vencer quando a margem do empreendimento é baixa ou negativa, porque tributa o lucro efetivo e permite compensar prejuízos.
RET — Regime Especial de Tributação
O RET é o regime previsto na Lei 10.931/2004 para incorporações submetidas ao patrimônio de afetação. A incorporadora recolhe mensalmente, em DARF único, 4% sobre as receitas recebidas das vendas das unidades do empreendimento, assim distribuídos: 1,26% de IRPJ, 0,66% de CSLL, 0,37% de PIS e 1,71% de Cofins. Há alíquota reduzida para empreendimentos habitacionais de interesse social, dentro dos limites de valor por unidade definidos na lei.
Patrimônio de afetação é a segregação do terreno, das acessões e dos direitos de um empreendimento do restante do patrimônio da incorporadora, de modo que esses bens respondam apenas pelas dívidas daquela obra. Ele é constituído por averbação no registro de imóveis (arts. 31-A a 31-F da Lei 4.591/1964) e é condição para o RET. Além do benefício tributário, a afetação dá segurança aos compradores e costuma ser exigida por bancos no financiamento à produção.
Pontos práticos do RET que o planejamento precisa considerar:
- A opção é por empreendimento e exige inscrição do empreendimento no CNPJ (como estabelecimento vinculado) e averbação da afetação.
- A receita é reconhecida pelo recebimento, o que alinha o tributo ao caixa do empreendimento.
- As receitas financeiras e outras receitas não vinculadas às vendas do empreendimento seguem o regime geral da incorporadora.
- O pagamento do RET é definitivo: não gera crédito de PIS e Cofins e não permite compensar prejuízos de outros empreendimentos.
- O lucro do empreendimento pode ser distribuído aos sócios com base no resultado contábil, sujeito às regras gerais de distribuição — inclusive as da Lei 15.270/2025.
Lucro Presumido na venda de imóveis
No Lucro Presumido, a receita de venda de unidades imobiliárias tem presunção de 8% para o IRPJ e de 12% para a CSLL, mais PIS e Cofins cumulativos de 0,65% e 3%. A carga efetiva fica perto de 6,7% da receita para empresas com faturamento abaixo de R$ 5 milhões por ano. Acima desse valor, a Lei Complementar 224/2025 acrescentou 10% aos percentuais de presunção sobre a parcela excedente — 8% passa a 8,8% e 12% a 13,2% —, com efeitos desde janeiro de 2026 para o IRPJ e desde abril de 2026 para a CSLL. A norma é contestada judicialmente e as ADIs sobre o tema aguardam julgamento no STF.
O Presumido permite reconhecer a receita das vendas a prazo pelo recebimento, e a empresa pode ter vários empreendimentos sob o mesmo CNPJ. Detalhes do regime estão na página de Lucro Presumido.
Lucro Real
No Lucro Real, IRPJ (15% mais adicional de 10% sobre a parcela que excede R$ 20 mil por mês) e CSLL (9%) incidem sobre o lucro efetivo do empreendimento, apurado com base no custo orçado e incorrido, e PIS e Cofins são não cumulativos (9,25%), com créditos sobre custos admitidos. É o regime mais trabalhoso, mas o único em que um empreendimento com margem apertada paga pouco ou nada de IRPJ e CSLL, e em que prejuízos podem ser compensados — limitados a 30% do lucro real de cada período. Veja mais em contabilidade no Lucro Real e em compensação de prejuízo fiscal.
Simulação: o mesmo empreendimento nos três regimes
Em um empreendimento ilustrativo com receita de vendas de R$ 30 milhões recebida em três anos, o RET resulta em R$ 1,2 milhão de tributos federais, o Lucro Presumido em cerca de R$ 2 milhões e o Lucro Real em cerca de R$ 4,1 milhões, considerando margem de 30%. Com margem baixa, a diferença entre Real e Presumido praticamente desaparece, mas o RET segue competitivo.
| Item | RET (4%) | Lucro Presumido | Lucro Real |
|---|---|---|---|
| IRPJ | R$ 378.000 | R$ 558.000 | R$ 1.761.750 |
| CSLL | R$ 198.000 | R$ 340.200 | R$ 660.150 |
| PIS e Cofins | R$ 624.000 | R$ 1.095.000 | R$ 1.665.000 |
| Total | R$ 1.200.000 | R$ 1.993.200 | R$ 4.086.900 |
| Carga sobre a receita | 4,00% | 6,64% | 13,62% |
| Lucro após tributos federais | R$ 7.800.000 | R$ 7.006.800 | R$ 4.913.100 |
Memória de cálculo. Presumido: receita anual de R$ 10 milhões, com R$ 5 milhões por ano acima do limite da LC 224/2025; bases de IRPJ e CSLL de 8% e 12% sobre R$ 30 milhões, mais o acréscimo de 0,8 e 1,2 ponto sobre os R$ 15 milhões excedentes (bases de R$ 2,52 milhões e R$ 3,78 milhões); IRPJ de 15% mais adicional de 10% sobre o que excede R$ 240 mil por ano; PIS e Cofins de 3,65%. Para simplificar, aplicamos o acréscimo integral também à CSLL. Real: PIS e Cofins de 9,25% sobre R$ 18 milhões (receita menos base de créditos); lucro tributável de R$ 7,335 milhões (receita menos custos e PIS/Cofins), sem adições ou exclusões. Tributos municipais (ISS da construção, quando houver empreitada; ITBI do terreno) e a contribuição previdenciária da obra foram desconsiderados, pois são iguais nos três cenários.
E se a margem for baixa?
Refazendo a conta com custo de R$ 26 milhões (margem de 13%), o RET continua em R$ 1,2 milhão, o Presumido em cerca de R$ 2 milhões e o Lucro Real cai para cerca de R$ 2,26 milhões. Com margem ainda menor ou prejuízo, o Real passa a ser o mais barato. Por isso a simulação deve ser feita com o orçamento da obra e com cenários de estouro de custo e de queda no preço de venda — não apenas com o cenário de lançamento.
Resumo da comparação “RET ou Lucro Presumido construtora”: em incorporação com afetação e margem normal, o RET tende a ser o regime de menor carga; o Presumido é alternativa quando a afetação não é viável ou quando a empresa reúne atividades que não se enquadram no RET; o Real se justifica em margens baixas, em empreendimentos com risco de prejuízo e em grupos com muitos créditos.
SPE ou SCP na incorporação: diferenças tributárias e societárias
A SPE é uma sociedade, geralmente limitada, criada para um único empreendimento, com CNPJ, contabilidade e personalidade jurídica próprios; isola riscos e pode optar pelo RET. A SCP é um contrato em que o sócio ostensivo opera em nome próprio e os participantes investem; tem CNPJ para fins fiscais, mas não personalidade jurídica. A escolha afeta riscos, financiamento e tributação.
| Critério | SPE (sociedade de propósito específico) | SCP (sociedade em conta de participação) |
|---|---|---|
| Natureza | Sociedade registrada na Junta Comercial, com personalidade jurídica | Contrato entre sócio ostensivo e participantes, sem registro na Junta e sem personalidade jurídica |
| Responsabilidade perante terceiros | Da própria SPE, com limitação conforme o tipo societário | Exclusiva do sócio ostensivo; participantes respondem só perante ele |
| Isolamento de risco | Alto, sobretudo com patrimônio de afetação | Baixo: os bens estão em nome do sócio ostensivo |
| Inscrição no CNPJ e escrituração | Obrigatória | CNPJ obrigatório para fins fiscais e escrituração própria (ECD/ECF) |
| Opção pelo RET | Possível, com afetação | Discutível, porque a incorporação é do sócio ostensivo |
| Regime de IRPJ/CSLL | Próprio da SPE | Apurado separadamente pela SCP; pode optar pelo Presumido |
| Financiamento bancário à produção | Mais comum e aceito | Menos comum |
| Entrada e saída de investidores | Alteração contratual e eventual ganho de capital na cessão de quotas | Mais flexível, conforme o contrato |
| Reforma tributária (IBS/CBS) | A SPE é contribuinte | A LC 214/2025 atribui o recolhimento ao sócio ostensivo |
Na prática, a SCP é útil para reunir investidores em empreendimentos menores, com custo de estrutura reduzido, desde que todos aceitem que os bens e as dívidas ficam em nome do sócio ostensivo. A SPE é o veículo padrão quando há financiamento bancário, muitos compradores, sócios com perfis diferentes ou interesse em isolar o empreendimento de passivos do grupo.
Um ponto que costuma passar despercebido: a distribuição de lucros da SPE ou da SCP aos sócios pessoas físicas, a partir de 2026, está sujeita à retenção de 10% sobre o valor total pago no mês quando este exceder R$ 50 mil por beneficiário e entra no cálculo da tributação mínima anual da Lei 15.270/2025. Em empreendimentos com lucro concentrado no fim da obra, o calendário de distribuição precisa ser planejado. O tema é tratado em pró-labore ou dividendos em 2026. Quando os sócios da SPE são holdings, a análise muda — ver holding familiar e patrimonial.
Para grupos com várias SPEs, a contabilidade consolidada, o controle de mútuos entre empresas e a alocação de despesas da incorporadora-mãe são tão importantes quanto o regime de cada SPE. Tratamos disso em contabilidade para grupos empresariais.
Tributação da venda de imóveis por PJ: na planta, em construção e pronto
Na tributação da venda de imóveis por PJ, o momento da venda muda o reconhecimento da receita e, às vezes, o regime aplicável. Vendas na planta e durante a obra são reconhecidas conforme os recebimentos no RET e no Presumido. No Lucro Real, a receita acompanha a evolução do custo incorrido. Imóveis do ativo imobilizado vendidos geram ganho de capital, não receita operacional.
Venda na planta e durante a obra
Na venda na planta, o comprador paga parcelas durante a obra e, em geral, financia o saldo na entrega das chaves. No RET e no Lucro Presumido, a receita é tributada à medida que é recebida, o que dá à incorporadora um tributo proporcional ao caixa. No Lucro Real, a legislação permite reconhecer o lucro das vendas a prazo de unidades em construção proporcionalmente ao custo incorrido em relação ao custo orçado, e diferir parte do lucro para os períodos de recebimento, observadas as regras da Receita Federal.
Distratos merecem atenção especial: a devolução de valores ao comprador reduz receita já tributada. No RET e no Presumido, a forma de recuperar o tributo pago sobre parcelas depois devolvidas precisa ser documentada mês a mês.
Venda do imóvel pronto
Unidades vendidas após o habite-se continuam sendo receita operacional da incorporadora, e o regime do empreendimento — inclusive o RET, se houver — segue aplicável às receitas daquele empreendimento. A diferença prática é financeira: o estoque pronto gera custos de condomínio e IPTU e, se for vendido com financiamento direto, alonga o recebimento e o tributo.
Imóvel do ativo imobilizado ou de investimento
Se a empresa vende um imóvel que não era estoque — uma sala que usava como sede ou um imóvel alugado a terceiros —, a operação gera ganho de capital, apurado pela diferença entre o valor de venda e o custo contábil. No Lucro Presumido, esse ganho é somado integralmente à base de IRPJ e CSLL, sem presunção, o que leva a carga a até 34% sobre o ganho. Esse ponto é decisivo para holdings patrimoniais e é tratado em holding para imóveis: vale a pena?.
| Situação | RET | Lucro Presumido | Lucro Real |
|---|---|---|---|
| Unidade de incorporação afetada vendida na planta | 4% sobre cada recebimento | Presunção 8%/12% e PIS/Cofins 3,65% sobre recebimentos | Lucro proporcional ao custo incorrido, com diferimento conforme recebimento |
| Unidade pronta vendida após o habite-se | Mantido para o empreendimento optante | Mesmo tratamento das vendas de estoque | Lucro na venda, com custo efetivo |
| Imóvel do ativo imobilizado ou de investimento | Não se aplica | Ganho de capital integral na base de IRPJ/CSLL | Ganho de capital no lucro real |
| Empreitada para terceiros | Não se aplica | Presunção 8%/12% com materiais; 32% sem materiais; ISS municipal | Lucro efetivo; ISS municipal |
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Falar no WhatsAppPermuta de terreno: como tratar no planejamento
A permuta é a troca do terreno por unidades futuras do empreendimento, muito usada no litoral catarinense por reduzir a necessidade de caixa na compra do terreno. Tributariamente, é preciso definir o valor atribuído às unidades, a existência de torna (pagamento em dinheiro) e o tratamento no IRPJ e na reforma tributária, que afasta IBS e CBS da permuta, salvo sobre a torna.
Do lado da incorporadora, a permuta registra o terreno no estoque pelo valor das unidades prometidas e cria a obrigação de entregá-las. Do lado do proprietário do terreno, se for pessoa física, a permuta sem torna, em regra, não gera ganho de capital tributável no momento da troca, e o custo das unidades recebidas é o custo do terreno entregue. Se o proprietário for pessoa jurídica, o tratamento depende do regime.
No Lucro Presumido, há divergência relevante: a Receita Federal historicamente admitia que a permuta sem torna não fosse computada como receita, mas decisões do Superior Tribunal de Justiça passaram a equiparar a permuta à compra e venda para fins de receita no Presumido, e o tema exige análise atualizada antes de cada contrato.
Na reforma tributária, a LC 214/2025 estabelece que a permuta de bens imóveis não sofre incidência de IBS e CBS, exceto sobre o valor da torna. A unidade entregue ao permutante, porém, entra no cálculo do empreendimento e precisa ser tratada com cuidado no redutor de ajuste. Cláusulas que o contrato de permuta deve prever:
- Valor atribuído ao terreno e às unidades, coerente com o mercado e com a avaliação para ITBI.
- Existência e valor de torna, e quem a paga.
- Responsabilidade por tributos sobre a transferência das unidades ao permutante.
- Prazo de entrega e consequências de atraso, que afetam o reconhecimento contábil.
- Cláusula de reequilíbrio para a transição da reforma tributária, em contratos que se estendem além de 2027.
INSS de obra: CNO, aferição e contribuição patronal na construção
Toda obra de construção civil deve ser inscrita no CNO, Cadastro Nacional de Obras, da Receita Federal. As contribuições previdenciárias da obra são declaradas mês a mês pela empresa responsável e, ao final, a obra passa por aferição, que compara a mão de obra declarada com a estimada pela área e padrão. Diferenças viram débito antes da certidão negativa necessária à averbação.
O CNO substituiu a antiga matrícula CEI e é regulado pela Instrução Normativa RFB 2.061/2021. A inscrição deve ser feita em até 30 dias do início da obra pelo responsável — o proprietário, o dono da obra ou a construtora contratada por empreitada total.
Como funciona a aferição
Aferição é o procedimento pelo qual a Receita Federal estima a remuneração de mão de obra que uma obra deveria ter consumido, com base na área construída, na destinação, no padrão construtivo e no Custo Unitário Básico (CUB) da região, e compara esse valor com o que foi efetivamente declarado em folha e em notas de serviços com retenção. Se a mão de obra declarada for menor que a estimada, a diferença é tributada. Para empresas, a regularização da obra é feita pelo envio das informações de aferição pelos sistemas da Receita, com reflexo na DCTFWeb.
Por que isso é planejamento tributário: a aferição penaliza obras em que a mão de obra foi contratada de forma pouco documentada. Notas de subempreiteiros com retenção de 11% (ou 3,5% quando o prestador recolhe sobre a receita bruta) devidamente destacadas, folhas corretas e controle de usinados e pré-moldados — que podem reduzir a área sujeita a mão de obra estimada — fazem diferença de dezenas de milhares de reais no fim da obra.
Contribuição patronal: folha ou receita bruta
Empresas de construção civil enquadradas nos códigos da construção de edifícios e de obras de infraestrutura estavam entre os setores que podiam recolher a Contribuição Previdenciária sobre a Receita Bruta (CPRB) em substituição à contribuição de 20% sobre a folha. A Lei 14.973/2024 estabeleceu a reoneração gradual entre 2025 e 2027, com combinação decrescente de CPRB e crescente de contribuição sobre a folha, até o retorno integral à folha em 2028. Em 2026, a escolha e o cálculo devem seguir as alíquotas da etapa de transição.
No Simples Nacional, a construção civil é tributada no Anexo IV, em que a contribuição patronal sobre a folha é paga fora do DAS. A incorporação imobiliária e a compra e venda de imóveis próprios não podem ser exercidas por empresas do Simples.
Reforma tributária: o regime específico de imóveis da LC 214/2025
A LC 214/2025 criou um regime específico para operações com imóveis no IBS e na CBS: redução de 50% das alíquotas na venda e de 70% na locação, redutor de ajuste vinculado a cada imóvel, redutor social de R$ 100 mil por unidade residencial nova e de R$ 30 mil por lote, e tributação da incorporação pelo regime de caixa. A CBS plena começa em 2027.
A Lei Complementar 214/2025 trata dos imóveis em capítulo próprio. Os elementos que entram no planejamento de incorporadoras:
- Redução de alíquota: as alíquotas de IBS e CBS nas operações de alienação de imóveis são reduzidas em 50%; nas locações, cessões onerosas e arrendamentos, em 70%.
- Redutor de ajuste: valor vinculado a cada imóvel, deduzido da base de cálculo na venda, que busca evitar que a valorização anterior ao novo sistema e os custos já tributados sejam novamente tributados. Para imóveis existentes antes de 2027, pode ser baseado no valor de aquisição ou em valor de referência, conforme regras e regulamento.
- Redutor social: na venda de imóvel residencial novo ou de lote residencial por contribuinte do regime regular, pode ser deduzido da base de cálculo R$ 100 mil por imóvel residencial novo e R$ 30 mil por lote, atualizados pelo IPCA, uma única vez por imóvel.
- Regime de caixa: na incorporação e no parcelamento do solo, o IBS e a CBS incidem sobre os pagamentos efetivamente recebidos.
- Créditos: no regime regular, a incorporadora apropria créditos sobre insumos, serviços e materiais adquiridos com tributação.
- Permuta: não incidência, salvo sobre a torna.
Transição para quem está no RET
O art. 485 da LC 214/2025 permite que a incorporadora com patrimônio de afetação e opção pelo RET efetivada antes de 1º de janeiro de 2029 continue recolhendo de forma unificada: a parcela correspondente ao PIS e à Cofins do RET é substituída por recolhimento de IBS e CBS de 2,08% da receita mensal recebida (0,53% nos empreendimentos de alíquota reduzida). Na prática, o empreendimento optante mantém carga total de 4% (1,26% de IRPJ + 0,66% de CSLL + 2,08% de IBS/CBS). Em contrapartida, a opção afasta créditos sobre as aquisições do empreendimento e impede o uso do redutor de ajuste e do redutor social nas vendas. Pela redação dada pela LC 227/2026, o recolhimento abrange IBS e CBS.
Essa regra torna 2027 e 2028 anos de decisão para quem vai lançar empreendimentos: optar pelo RET antes de 2029 garante previsibilidade; ficar fora pode ser vantajoso para empreendimentos residenciais de unidades de menor valor, nos quais o redutor social de R$ 100 mil reduz bastante a base. A simulação precisa ser feita unidade a unidade, com a tabela de vendas do empreendimento.
O ano de 2026 é de teste (CBS de 0,9% e IBS de 0,1%, com compensação), e a CBS passa a ser cobrada integralmente em 2027, com extinção de PIS e Cofins. Entre 2029 e 2032, ICMS e ISS são reduzidos gradualmente e substituídos pelo IBS; em 2033, o modelo estará completo. Para construtoras que prestam empreitada, a substituição do ISS municipal pelo IBS, com crédito na cadeia, muda a lógica de preço dos contratos de longo prazo.
Estrutura do grupo: construtora, incorporadoras, SPEs e holding
Grupos do setor imobiliário costumam separar a construtora (que executa obras), as incorporadoras ou SPEs (uma por empreendimento) e uma holding que detém as participações e o patrimônio dos sócios. A separação só gera economia lícita se houver substância: contratos de empreitada a preço de mercado, contabilidade própria de cada CNPJ e fluxos financeiros documentados.
Uma estrutura típica no litoral catarinense tem:
- Holding dos sócios, que detém as quotas das empresas operacionais e, eventualmente, imóveis de renda.
- Construtora, contratada por empreitada pelas SPEs, com sua própria folha, equipamentos e responsabilidade técnica.
- SPEs, uma por empreendimento, com patrimônio de afetação e, em regra, opção pelo RET.
- Imobiliária ou empresa de vendas, quando o grupo comercializa diretamente, recebendo comissões.
Pontos de atenção que a fiscalização examina nesses grupos: preço de empreitada entre construtora e SPE fora de mercado (transferindo lucro para a empresa de menor tributação), mútuos sem contrato e sem tributação de IOF, despesas da incorporadora-mãe rateadas sem critério e distribuição de lucros sem escrituração contábil. Com a Lei 15.270/2025, a distribuição de lucros das SPEs para os sócios pessoas físicas também passou a exigir planejamento de calendário.
Quando o patrimônio dos sócios inclui imóveis de renda ou unidades recebidas em permuta, a holding patrimonial entra no planejamento — com análise de ITBI, aluguel e sucessão. A análise é feita junto com o planejamento sucessório da família.
Roteiro de planejamento tributário para construtora e incorporadora
O roteiro de planejamento tributário para construtora começa no estudo de viabilidade do empreendimento, antes da compra ou permuta do terreno, e acompanha a obra até o último recebimento. As decisões mais importantes — veículo, afetação, regime e forma de aquisição do terreno — são tomadas antes do lançamento; depois dele, muitas se tornam irreversíveis.
- Viabilidade: incluir tributos federais, municipais e INSS da obra no estudo de viabilidade, com cenários de RET, Presumido e Real.
- Terreno: definir compra ou permuta, valor atribuído, torna e ITBI; avaliar o efeito no redutor de ajuste da reforma.
- Veículo: SPE ou SCP, quadro de sócios (pessoas físicas ou holdings) e acordo de investimento.
- Afetação e RET: averbar o patrimônio de afetação, inscrever o empreendimento e optar pelo RET quando a simulação indicar.
- CNO e mão de obra: inscrever a obra, organizar folha, subempreitadas e retenções desde o primeiro mês.
- Vendas: tabela de vendas, contratos com cláusula de tributos e reajuste, controle de distratos.
- Acompanhamento: apuração mensal por empreendimento, custo orçado x incorrido, conciliação de recebimentos.
- Encerramento: aferição da obra, certidão negativa, averbação, distribuição de lucros planejada e encerramento da SPE.
O método geral de planejamento — diagnóstico, dados, projeção, simulação e revisão — está descrito em como fazer planejamento tributário em 8 etapas, e o atendimento a empresas da cidade, na página de planejamento tributário em Balneário Camboriú.
Erros frequentes no planejamento tributário de construtoras
Os erros mais frequentes são lançar o empreendimento sem averbar a afetação e perder o RET, misturar vários empreendimentos no mesmo CNPJ sem controle, tratar permuta sem contrato claro, descuidar da mão de obra e ser surpreendido na aferição, distribuir lucros sem escrituração e ignorar a reforma tributária em contratos de longo prazo.
- Afetação tardia: sem a averbação e a inscrição do empreendimento, as receitas recebidas antes da opção não entram no RET.
- Receitas de empreendimentos misturadas: sem centro de custo por obra, não é possível demonstrar o resultado de cada empreendimento nem aplicar o regime correto.
- Permuta informal: valores subavaliados criam problemas no ITBI, no IRPJ e, a partir de 2027, no redutor de ajuste.
- Subempreiteiros sem retenção: além de gerar responsabilidade solidária, aumentam a diferença na aferição.
- Distribuição de lucros antecipada: lucros distribuídos acima do resultado contábil podem ser tributados como remuneração.
- Contratos sem cláusula de tributos: contratos de venda e de empreitada que se estendem além de 2027 sem previsão de reequilíbrio para IBS e CBS.
Se a empresa já enfrenta algum desses problemas, a regularização vem antes do planejamento. Erros herdados de gestões contábeis anteriores precisam ser corrigidos com retificações e, se for o caso, denúncia espontânea, e valores pagos a maior podem ser recuperados — ver recuperação de créditos tributários.
Próximos passos para a sua construtora ou incorporadora
Se há empreendimentos em estudo para 2027 e 2028, o planejamento tributário deve ser feito agora, antes da aquisição do terreno e do lançamento. A Sentinel Contabilidade simula RET, Presumido e Real com o orçamento e a tabela de vendas do empreendimento, inclui os efeitos da reforma tributária e acompanha a apuração mensal por obra.
O trabalho tem responsabilidade técnica do contador Gabriel Costa Tavares (CRC-SC nº 100693/SC) e é feito em conjunto com o jurídico e o engenheiro da empresa, porque decisões de afetação, permuta e contratos são multidisciplinares. Atendemos presencialmente construtoras e incorporadoras de Balneário Camboriú, Itajaí, Itapema, Navegantes e do Vale do Itajaí, e remotamente empresas de outros estados. Envie os dados do próximo empreendimento para uma primeira análise com a nossa equipe.
Perguntas frequentes
RET ou Lucro Presumido: qual é melhor para construtora?
Depende da margem e do tipo de operação. O RET unifica IRPJ, CSLL, PIS e Cofins em 4% da receita recebida do empreendimento com patrimônio de afetação. No Lucro Presumido sobre venda de imóveis, a carga gira em torno de 6,7% da receita. Para incorporação com afetação, o RET costuma ser menor; para empreitada e obras para terceiros, ele não se aplica.
O que é o RET da incorporação imobiliária?
O Regime Especial de Tributação é previsto na Lei 10.931/2004 para incorporações submetidas ao patrimônio de afetação. A incorporadora recolhe, em guia única, 4% sobre as receitas mensais recebidas do empreendimento, abrangendo IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. A opção é feita por empreendimento, depende da averbação da afetação no registro de imóveis e é irretratável enquanto houver obrigações do empreendimento.
SPE ou SCP: qual escolher para uma incorporação?
A SPE é uma sociedade com personalidade jurídica própria, criada para um empreendimento, que isola riscos, facilita financiamento e pode optar pelo RET. A SCP é um contrato entre sócio ostensivo e participantes, sem personalidade jurídica, mais simples, mas em que o sócio ostensivo responde perante terceiros. Para empreendimentos com financiamento bancário e vários investidores, a SPE tende a ser preferida.
Como é a tributação da venda de imóveis por pessoa jurídica?
Na pessoa jurídica que tem a venda de imóveis como atividade, a receita é tributada como receita operacional: no Lucro Presumido, com presunção de 8% para IRPJ e 12% para CSLL, mais PIS e Cofins cumulativos de 3,65%; no RET, 4% sobre a receita do empreendimento afetado; no Lucro Real, pelo lucro efetivo. Imóvel do ativo imobilizado vendido gera ganho de capital, tributado de forma diferente.
Permuta de terreno por unidades gera tributo?
A permuta sem torna tem tratamento específico. Na reforma tributária, a LC 214/2025 prevê que a permuta não sofre incidência de IBS e CBS, exceto sobre a torna. No IRPJ, há divergência entre a posição histórica da Receita Federal e decisões do STJ para empresas no Lucro Presumido. O tratamento deve ser definido antes da assinatura do contrato.
O que é CNO e aferição de obra?
O CNO, Cadastro Nacional de Obras, é o registro obrigatório de obras de construção civil na Receita Federal, que vincula a obra ao responsável pelos recolhimentos previdenciários. A aferição é o procedimento que, ao fim da obra, compara a remuneração de mão de obra declarada com a estimada pela área e padrão construtivo, apurando eventual diferença de contribuição antes da emissão da certidão.
Como a reforma tributária afeta as incorporadoras?
A partir de 2027, a CBS substitui PIS e Cofins, e o IBS substitui gradualmente ICMS e ISS até 2033. A LC 214/2025 criou um regime específico para imóveis, com redução de 50% das alíquotas na venda, redutor de ajuste e redutor social de R$ 100 mil por unidade residencial nova. Empreendimentos com opção pelo RET feita antes de 2029 podem manter recolhimento unificado na transição.
Construtora pode ficar no Simples Nacional?
A construção de imóveis e obras de engenharia em geral podem ser exercidas por empresas do Simples, tributadas no Anexo IV, em que a contribuição patronal é paga fora do DAS. A incorporação imobiliária e a compra e venda de imóveis próprios, porém, não são permitidas no Simples. Para incorporadoras, a escolha costuma ficar entre RET, Presumido e Real.